Quinta-feira, Julho 02, 2009

Estado da Nação

vbfsousa@hotmail.com

(Podia ser assim)


O primeiro-ministro José Sócrates ficou escandalizado com a aparição de Alberto João Jardim em cuecas. O Presidente do Governo Regional
da Madeira quis, em trajes menores, manifestar o seu apoio a Durão Barroso, que se recusou a ser fotografado de tanga para simbolizar o estado do país. Alberto João pensou em convidar uma voluptuosa qualquer da JSD/M para representar a Região, mas todas as candidatas ostentavam corpos demasiado escorreitos para honrar a orografia acidentada da ilha. Uma fonte da JSD/M explica que os físicos perfeitos devem-se ao imenso trabalho que a estrutura juvenil desenvolve, amiúde em "colaboração horizontal" com o partido. Ousado, o líder surgiu perante as câmaras com cuecas de velha porque, garante, "a Madeira ainda não tem o rego à mostra."

No debate que decorreu ontem na Assembleia da República, os atritos entre as bancadas parlamentares e o governo foram pródigos. Paulo Portas, dirigindo-se a Manuel Pinho, Ministro da Economia e dos Assuntos Tauromáquicos, alegou que o executivo de Sócrates se assemelha a um grupo de forcados, em fila indiana para manietar o país. Num raro momento de apoio ao Governo, Francisco Louçã comparou Portas, nos seus tempos de Ministro, ao forcado que faz a pega, à espera dos companheiros que vêm por trás. Aparentemente, ninguém terá percebido a analogia, à excepção do próprio visado. O líder da Opus Gay foi obrigado a abandonar as galerias do hemiciclo por ser demasiado sensível a descrições fotográficas de homens encavalitados. Portas reagiu com um mal dissimulado gesto.


Ausente do país - e sem qualquer informação sobre o que se havia passado no debate -,Cavaco Silva foi confrontado pelo jornalistas. Sem verbalizar, a reacção do Presidente da República é elucidativa.

Terça-feira, Junho 16, 2009

Das coisas descartáveis

vbfsousa@hotmail.com

Sempre que tenho um jornal nas mãos, quase que me coajo a ler todos os artigos mais extensos. Quando trabalhei no jornalismo, corroíam-me horas de desassossego por causa de um texto. Ainda mais inquieto ficava quando imaginava a possibilidade de alguém estar no wc, folheando páginas e descartando-as à velocidade das fezes em queda vertiginosa no vácuo.

Segunda-feira, Junho 08, 2009

Paradoxo português

vbfsousa@hotmail.com

Martin Schulz, líder dos socialistas europeus, após a vitória da "direita" nas eleições europeias de ontem:É uma noite triste para a social-democracia na Europa. Estamos muito desapontados, é uma noite amarga para nós.”

A soturnidade de Schulz deverá ter sido suavizada pela vitória do Partido Social Democrata português. Ah, porra, a Social Democracia, em Portugal, é de direita...


Sexta-feira, Junho 05, 2009

Sobre o voto obrigatório

vbfsousa@hotmail.com

Eu quero viver numa democracia que me dê o direito de não exercer os meus direitos. Quero uma democracia que não me obrigue a ser democrata. Sou-o por opção, não por imposição. Quero uma democracia que me garanta liberdade para não querer ser livre. E não, não quero ser obrigado a votar. Nunca.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

Horas mudas

vbfsousa@hotmail.com

Fizeste sangrar a solidão.
O silêncio caiu sobre a mesa fria.
As mãos desistiram de te recriar
Pela linguagem dos homens.
Vejo o teu odor
Como quem se alimenta de chamas.
Ardes-me na voz, e todo eu sou mudez.
Pairas como candeia
Feita de insónia a ofuscar a cegueira.
És grito tribal no coração de um autómato,
A criação onírica de Deus no Sétimo Dia.
Guardas na boca a caixa de Pandora.
Fechada.
Abre-a, como um tufão,
E atira-me para longe da tua distância.
Porque todo o mal do Mundo é a espera
Do segundo que humedece os lábios
E emudece as horas.


(Do Evangelho apócrifo segundo Mateus)

Quinta-feira, Maio 14, 2009

Do certo e do errado

vbfsousa@hotmail.com

Não há idade certa para escrever certo. Mas todas as idades são erradas para escrever errado.

Sábado, Maio 09, 2009

Da salvação (ou do parasitismo)

vbfsousa@hotmail.com

Amar-te-ei até ao penúltimo dia. No último, recordo-me de Deus. Porque o Amor não salva, e Deus pode dar jeito.

Terça-feira, Maio 05, 2009

Aforismos

vbfsousa@hotmail.com

Se o futuro te esquecer, pede ao passado que te reinvente.

Domingo, Abril 26, 2009

26 de Abril

vbfsousa@hotmail.com

Na Madeira, saltam-se dias. Acordem-me quando a Hora da Liberdade chegar cá. Aos cinemas, claro.

Terça-feira, Abril 21, 2009

Músicas que se antecipam (IV)

vbfsousa@hotmail.com

Quarta-feira, Abril 08, 2009

Músicas que se antecipam (III)

vbfsousa@hotmail.com


Terça-feira, Abril 07, 2009

Marx (I)

vbfsousa@hotmail.com

Marx foi um péssimo médico do capitalismo, porque todos os antídotos falharam. Mas foi o seu perfeito médico-legista.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Da mentira

vbfsousa@hotmail.com

Um homem suicidou-se no último segundo do dia 31 de Março. Diziam-lhe que, ao morrer, entrava na eternidade. Não acreditava, e fez da morte uma mentira.

Terça-feira, Março 31, 2009

Músicas que se antecipam (II)

vbfsousa@hotmail.com


Sexta-feira, Março 27, 2009

Da pontuação

vbfsousa@hotmail.com

Eu como um verdadeiro macho
(
Marialva que come vírgulas como se fossem mulheres)

Eu, como um verdadeiro macho
(
Marialva que não come vírgulas)

Terça-feira, Março 24, 2009

Das músicas que se antecipam

vbfsousa@hotmail.com



Quarta-feira, Março 18, 2009

África

vbfsousa@hotmail.com

Estou céptico - para ser eufemístico - quanto à possibilidade de África se regenerar, caminhando sem moscas a pairar sobre futuros em putrefacção. Mas dizem que a esperança é a última a morrer. De facto, temo que África morra primeiro do que a esperança. Se depender da Cúria romana, com a sua apologia das virgens marias, a coisa fica negra. Não espero que Bento XVI ensine os africanos a usar preservativo, mas peço-lhe que use bem a única cabeça que conhece. Não podemos calá-lo?

Terça-feira, Março 10, 2009

A cova aberta

vbfsousa@hotmail.com

Eu gosto da verdade. Ainda mais das verdades pungentes. Por isso, gosto de ouvir o Medina Carreira. Mas fico sempre com a sensação de que o país já morreu há muito, e andamos todos numa realidade paralela, como se o coveiro tivesse falecido antes de fechar a cova. Não é neste país que os finados, às vezes, votam?

Terça-feira, Março 03, 2009

Evangelho segundo a blasfémia

vbfsousa@hotmail.com

Houvesse um conversor sináptico entre o sonho e a caneta lívida, adiada e aberta como os pulsos de um homem que suspeita estar morto. Na mesa, ao lado da cama, rente às têmporas, há virgens a suster a hemorragia do desejo, e amores brancos que esperam por uma palavra seminal que lhes defina os contornos. Todas as noites, injecto alfabetos na carga de escorrências difusas. Gotejam nos escombros interditos da vigília como o sangue que uma estéril derramou antes de ser santa. Queria-a para semear alfas e ómegas no ventre, esgotar a arte na paternidade de todos os intermédios e vê-los crescer como um poema contínuo de degraus heréticos. Até Deus. Mas faltam heróis, e morreram as deusas que doavam o verbo. Só restam joelhos submetidos ao sacrifício de orações pagãs e bocas que inspiram o fôlego erecto das fajãs. Talvez abra as veias à invasão de heroínas. Até à overdose de improváveis.

Viver de partidas porque tudo termina numa chegada, dizem os troncos curvados das mulheres que levantam as manhãs e todo o peso dos crepúsculos. Bebem lume em jejum para acender as auroras que carregam no ventre. Começam a morrer quando perdem o norte do passado, feito cinzas na última ascese da Quaresma. Sentem a sucção do sul, como uma doença rara, nas varizes. Caem hirtas. Só as mulheres castas dos Carnavais morrem curvadas, putas a galope no último milímetro dos penhascos. Em silêncio, no apocalipse de pecados em estilhaços. Quem nunca lhes sentiu o final de boca que atire a primeira língua.

Mulheres que amam mais as palavras do que os cérebros que as pensam, as mãos que as escrevem ou os lábios que as calam. Têm na cabeça o ócio de Deus antes da Criação, ou ventos físicos, expulsos nos espirros, nas vias abandonadas dos neurónios. No corpo, os moldes proscritos de planetas dantescos e, na boca, voragens circulares de demónios com jazigos de génios liquefeitos. Devolvem aos homens a crença de que a fé move montanhas, quando eles lhes tacteiam os seios. “Diz-me uma palavra e serei salva”.

Levanta-te e fode.

In vulva veritas.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

Variações sem dó maior

vbfsousa@hotmail.com

Não há abrigos, nem saudade, que protejam os passados da erosão. Putrefazem-se. Até os ciprestes caem de cansaço. Leva-os o vento para o lixo. Tudo o que aconteceu sobrevive como arte sacra em jazigos sem lápide. Devolver à origem, árida e isolada, estimações que quisemos resgatar. E abater, sem misericórdia, coelhos desenraizados no tempo que me resta. Como os ciprestes que deixam de fazer sombra à morte, incineremos as peles que incendiavam ilusões. O futuro já não tem frio.

Sexta-feira, Fevereiro 20, 2009

Pesos e medidas

vbfsousa@hotmail.com

A complacência de que desfruta o comunismo, o mais sanguinário de todos os regimes totalitários, exibe-se, numa escala inferior, nas democracias do século XXI. Dois pesos e duas medidas para governos à esquerda ou à direita. Quando Santana Lopes assumiu a chefia do governo, as tropelias que se amontoaram suscitaram um fenómeno de hostilidade ímpar na opinião publicada. Jornais, televisões, blogues, todos numa "cabala involuntária" - citando o ínclito e inefável Rui Gomes da Silva - contra Santana e a sua trupe. E há tantos casos associados ao actual Governo. Tantos quanto os dias.

Quarta-feira, Fevereiro 18, 2009

Da irrelevância

vbfsousa@hotmail.com

Sobre questões civilizacionais, não perguntem nada à Igreja Católica. É irrelevante. Já não me canso com fósseis.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

A sul

vbfsousa@hotmail.com

Se a loucura tivesse voz seria um alfabeto impossível. Como as insónias secas e os segundos amontoados no abismo da voragem, empurrados, um a um, pelo pêndulo fúnebre da sala. Talvez só a avó desvenda a linguagem, imutável e certa, do compasso que lhe martela a surdez. Quando cai a noite, os segredos fervem na casa, atiçados pelo vento que ignora as portas fechadas. Infiltram-se nas fechaduras, como túneis do tempo sem chave. Em criança, encostei a boca à fechadura. Um tiro de ar proibido ressoou nas vísceras como a chave errada de uma porta aberta. O peito inchou até ao sufoco. Recuperei o ar quando perguntei o que era a morte. O meu avô explicou que estarei vivo enquanto o peito imitar o relógio da sala. Todos os dias, via-o a dar corda ao relógio, como se o ressuscitasse. No bolso, luzia sempre uma chave. Pensei que era a chave disso a que chamavam morte. “Essa porta só se abre uma vez. Saberás quando o pêndulo do coração se despenhar nos pés. É tão pesado que abre uma cratera no chão”, disse. Um dia, o meu avô não regressou a casa. Achei que tinha morrido porque ninguém deu corda ao relógio. Ou que tinha sido rebocado pelo coração que lhe caíra do peito, até ao sul de tudo. Subi a uma cadeira e agitei o pêndulo. “O avô já vem”. Mas a morte é uma porta que só se abre por fora.

Talvez a velha procure o marido nas horas que não chegam, fitando o boneco de porcelana, de braços abertos e sorriso carcomido, como um órfão sem remanso à espera de um beijo que lhe rasgue os panos. Porque ela tem verdades radioactivas no verbo analfabeto e nas lágrimas de água benta que lhe caem desde o baptismo. Só ela sabe que os “pássaros andam no ar” ou, quando contempla o céu à procura de indícios de chuva, que “o tempo não desandou”. Os dedos galopam no rosário, num trânsito cego acompanhado pelos segundos incandescentes a que sobrevive. Só reza nas noites de cabedal negro, porque o breu é o melhor condutor de Deus, o incendiário que nunca foi descoberto.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

(a)deus, nada

vbfsousa@hotmail.com

Da escrita como uma escarpa que se desce,
de cabeça para baixo,
com o cérebro mais perto da palavra do que as mãos.
Um cordão de lume preso à loucura
e enrolado nas têmporas,
como um sensor de letras inflamáveis.
O verbo nas reentrâncias da rocha,
sob camadas descarnadas de alma,
adiado em lava sem fulgor.

Houve homens que criaram palavras físicas,
antes da voz.
Pensaram em altura e mediram-na.
Pensaram em abismos e atiraram-se.
Diz-se que um gritou adeus,
Mas perdeu o apêndice na queda.
Foi assim que nasceu Deus.

No inferno fervem poetas
na disputa de um prefixo.
Respiram a uma letra da verdade.
Gritam deus e o diabo bebe-lhes o suor,
enquanto procuram o litoral
de uma ilha com lábios à volta
e muros de promessas escritos a corrector.
Diluídos,
difusos,
gastos,
reescritos pela erosão.
O tempo é sábio.
Amputou um amor
e teceu a verdade íntima:
Nada.

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

Variações em dor maior

vbfsousa@hotmail.com

Teremos sempre a despedida. Todos os dias, a distância acentua o adeus, em mãos de contornos baços entre as brumas. E a velhice anula os tempos que não vivemos. Esquecemos. Mas teremos sempre a despedida, como bocas que falam a língua do fogo, para sabermos que ainda não morremos. Só ainda não morremos.

Um dia, disseram-me: “vem, eu mostro-te Roma”. O Amor tem muitas variações, mas só ao contrário resiste à máquina do tempo. O resto,

(a dor
a raiva
o nojo
as insónias
o prazer furtivo de um orgasmo,
as portas que trancam o momento
a cadência surda de passos sem volta
as sementes brancas noutros montes
as vírgulas depois de pontos finais
a ilógica de tudo
e todos os outros pleonasmos)

eu esqueci na eternidade, e já não sei o caminho para esquecê-lo. Poucas vezes olho para os meus olhos. Talvez temo cegar, e cair numa palavra física. Como “Mulher”. Mas temo ainda mais a surdez, ou palavras húmidas que escorrem como morenas báquicas a gritar promessas no vácuo. Porque Amor é uma palavra demasiado grande para dois lábios. E a voz adia-se no eco mudo de um espelho que só devolve a minha boca.

Tenho um jazigo de versos nas mãos e basalto na garganta a entravar o verbo que aspiro do chão. Um dia, engulo todas as letras da morte. Mas não há metáforas para chegar a Deus mais rápido, e falta-me o fôlego para procurá-Lo nas costas do nada. Talvez aí me aguarda o derradeiro beijo dúbio da serpente queimada.

Temos sempre tempo para o azar de morrer. Há tantas estradas infindas, maiores do que a cegueira, e caminhamos, como sonâmbulos, para a única curva onde um acidente abre as veias ao sono. A morte é a única mulher fiel à promessa de que me espera. Não tenho pressa. É sempre cedo para me entregar aos prazeres de uma puta. Se ela me questionar, respondo que não tenho metáforas para puras. Mas se quiser manter o refinamento como cariz, em vez de puta, chamo-lhe meretriz.

Quinta-feira, Janeiro 22, 2009

Conseguir o Impossível

vbfsousa@hotmail.com


Plagiando o Luís, já fui feliz aqui. Muito. Há três anos.

Domingo, Janeiro 11, 2009

Apressa-te

vbfsousa@hotmail.com

A hora dos ardinas é o reencontro do Mundo com a cidade,
a hora absoluta da madrugada perene,
o ventre místico dos sonhos
na meia-noite dos ventos cruzados.
O orvalho prometido às línguas secas que esperam o Verbo,
ou as poeiras de Marte na tinta fresca dos jornais
nas mãos de homens que trazem o Universo no regaço.
E não sabem.

Ouço,
o som oco dos pombos com vertigens,
no parapeito.
Os gatos no terraço
a sondar uma beata insone,
caída de bocas que não inspiram.
Porque os sonhos não se apagam,
e o sono é uma ferida dentro do tempo,
a sangrar lume nas veias do sossego.

Parto sempre
da janela para os olhos de Deus,
abertos como horizontes quinhentistas,
essa a última fronteira,
antes da cegueira,
O supremo infinito.

Há um poema vestido na garganta.

Cresce, negro.
Dispo-o e sinto-lhe os contornos,
devagar,
como mãos sem pressa
de acabar o trilho das ancas,
o vale dos seios,
a levada dos lábios,
ou o nome carnal de Vénus
em espectros de gemidos perdidos.
No coração das camas.

As letras desenham-se,
truncadas,
nos lábios.
Mas um frio súbito
(como
o
medo
de
tecer
um
epitáfio)
atira num espirro o poema para longe.

Aconteceu quando nasci.
Vinte e cinco anos depois,
Ainda não descobri a palavra.
E o espelho diz-me
Que Amor só existe ao contrário.
Porque Roma é eterna.

Apressa-te.

Não sei se me demoro.

Sexta-feira, Janeiro 09, 2009

12 mesi a Funchal

vbfsousa@hotmail.com



A antologia 12 meses no Funchal - apresentada em Agosto e para a qual contribuí com um conto e - já se encontra disponível em italiano. É numa língua estrangeira que nos sentimos, cada vez mais, outro. Um estranho com quem caminhamos em contramão, nas Ruas de Julho, a respirar do avesso dentro do sono.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

Queda

vbfsousa@hotmail.com

Só a lua ilumina o silêncio,
Imóvel,
Quase comatoso,
No âmago de um vulcão que se esqueceu de si,
E de um fogo que todo o mutismo,
Daquele nada sem oxigénio,
Sufocou.

Atira um pedaço de carne
Para o cone infindo do silêncio.
Se houver chegada,
A tua dor em sangue
Recorda à lava que existe
Para acender o breu.

Se a tua carne continuar a cair
No silêncio das camadas subterrâneas,
Exulta,
Porque partiste num fragmento
Que nunca pousa no sepulcro.
E não mais acabarás de viver.
Ou de morrer.



Segunda-feira, Dezembro 22, 2008

Ideologias em Portugal, ontem como hoje

vbfsousa@hotmail.com

Não obstante todos os remoques com que muitos tentaram deteriorar a campanha Presidencial de Manuel Alegre, há um facto que a lucidez obriga a reconhecer: o milhão de votos, transformado em objecto de sátira, é um claro indício da saturação do actual sistema político.

Na altura, e após o conhecimento dos resultados das eleições, enfatizei a necessidade de proteger esse legado cívico, mas sem condenar Alegre ao estatuto de seu patrono. Várias contingências se conjugaram para a obtenção daquele resultado histórico para a Democracia portuguesa, e o futuro não garante a repetição do contexto. A herança de uma candidatura em contra-mão, capaz de combater os atavismos que os partidos políticos, desde 1976, reforçaram, não é uma responsabilidade exclusiva de Alegre. Até ao dia das eleições, Manuel Alegre foi a personificação de anseios latentes na sociedade portuguesa. Logo após as eleições, o milhão de votos permanece, somente, como registo histórico, e não como propriedade de um homem. Todos aqueles que relativizam o resultado alcançado por Alegre, nas últimas presidenciais, ocultam um desejo fervilhante: ver Alegre reivindicar o milhão de votos como argumento para a formação de um novo partido. Até agora, Alegre soube resistir à tentação de personalizar um fenómeno que não se extingue num só homem. Porque o espectro de Eanes continua bem presente.

Portugal oferece um bom amparo para quem profetizou a morte das ideologias. Se, durante e após o Verão quente de 75, houve um genuíno conflito ideológico em Portugal, a adesão à CEE domesticou quase toda pulsão ideológica nos partidos com ambições governamentais. Depois de 86, a esquerda do poder nunca foi, verdadeiramente, esquerda, e a direita nunca esconjurou os indícios esquizofrénicos herdados do Estado Novo. Desenraizada, com receio de estigmas, nem o CDS de Freitas do Amaral se conseguiu assumir como um verdadeiro partido de direita, minando o terreno ideológico do PSD, o único partido europeu que se inspira na Social-Democracia e surge conotado com a direita. Se Eduardo Lourenço, numa inversão propositada da verdade, declarou que “o fascismo nunca existiu”, não há hipérbole ou revisionismo nesta afirmação: a direita portuguesa, com aspirações ao poder, nunca existiu.

Em 75, as esquerdas se digladiavam, e o PSD assistia. Em 2008, verifica-se alguma ebulição na esquerda, e o PSD assiste. Num modelo de poder rotativo, entre o PS e o PSD, não há espaço para um governo com forte cunho ideológico, até porque o espaço de manobra imposto pela União Europeia é reduzido, homogeneizando o que, à partida, é divergente. Por isso, todo o debate ideológico radica à esquerda do PS, incluindo militantes socialistas, como Alegre, que não se revêem num partido que meteu o socialismo na gaveta. Ontem, como hoje, as esquerdas ainda procuram uma identidade, enquanto a direita – e principalmente o PSD - já se cansou de perguntar ao morto qual o seu nome. Ou ao esquizofrénico quantos nomes tem.