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Não obstante todos os remoques com que muitos tentaram deteriorar a campanha Presidencial de Manuel Alegre, há um facto que a lucidez obriga a reconhecer: o milhão de votos, transformado em objecto de sátira, é um claro indício da saturação do actual sistema político.
Na altura, e após o conhecimento dos resultados das eleições, enfatizei a necessidade de proteger esse legado cívico, mas sem condenar Alegre ao estatuto de seu patrono. Várias contingências se conjugaram para a obtenção daquele resultado histórico para a Democracia portuguesa, e o futuro não garante a repetição do contexto. A herança de uma candidatura em contra-mão, capaz de combater os atavismos que os partidos políticos, desde 1976, reforçaram, não é uma responsabilidade exclusiva de Alegre. Até ao dia das eleições, Manuel Alegre foi a personificação de anseios latentes na sociedade portuguesa. Logo após as eleições, o milhão de votos permanece, somente, como registo histórico, e não como propriedade de um homem. Todos aqueles que relativizam o resultado alcançado por Alegre, nas últimas presidenciais, ocultam um desejo fervilhante: ver Alegre reivindicar o milhão de votos como argumento para a formação de um novo partido. Até agora, Alegre soube resistir à tentação de personalizar um fenómeno que não se extingue num só homem. Porque o espectro de Eanes continua bem presente.
Portugal oferece um bom amparo para quem profetizou a morte das ideologias. Se, durante e após o Verão quente de 75, houve um genuíno conflito ideológico em Portugal, a adesão à CEE domesticou quase toda pulsão ideológica nos partidos com ambições governamentais. Depois de 86, a esquerda do poder nunca foi, verdadeiramente, esquerda, e a direita nunca esconjurou os indícios esquizofrénicos herdados do Estado Novo. Desenraizada, com receio de estigmas, nem o CDS de Freitas do Amaral se conseguiu assumir como um verdadeiro partido de direita, minando o terreno ideológico do PSD, o único partido europeu que se inspira na Social-Democracia e surge conotado com a direita. Se Eduardo Lourenço, numa inversão propositada da verdade, declarou que “o fascismo nunca existiu”, não há hipérbole ou revisionismo nesta afirmação: a direita portuguesa, com aspirações ao poder, nunca existiu.
Em 75, as esquerdas se digladiavam, e o PSD assistia. Em 2008, verifica-se alguma ebulição na esquerda, e o PSD assiste. Num modelo de poder rotativo, entre o PS e o PSD, não há espaço para um governo com forte cunho ideológico, até porque o espaço de manobra imposto pela União Europeia é reduzido, homogeneizando o que, à partida, é divergente. Por isso, todo o debate ideológico radica à esquerda do PS, incluindo militantes socialistas, como Alegre, que não se revêem num partido que meteu o socialismo na gaveta. Ontem, como hoje, as esquerdas ainda procuram uma identidade, enquanto a direita – e principalmente o PSD - já se cansou de perguntar ao morto qual o seu nome. Ou ao esquizofrénico quantos nomes tem.