vbfsousa@hotmail.com(Originalmente publicado em Fevereiro de 2008)
Alguém bateu à porta, naquela tarde de ócio estival. Mas ócio era uma palavra que ela desconhecia, e não só por ser quase analfabeta. Também desconhecia o conceito. De imposta vassoura nas mãos, fustigava as esquinas das portas com uns ferozes golpes que limpavam os estilhaços das lágrimas caídas. Um corrupio assombrava a casa, entre o chocalhar de panelas com comida do almoço e a alegria feita grito das crianças dispersas pela casa, num tropel infindo. Não as odiava só porque já haviam nascido ricas. Não podia amaldiçoar os ricos, porque também queria ser como eles. Sentia náuseas com o congestionamento cerebral que a ideia de se amaldiçoar a si própria causava. Uma baça esperança sobrevivia, algures, em si, e agudizava-se o desdém com que manejava a vassoura. Largou-a para abrir a porta, cedendo às imprecações da mãe, ocupada com uma criança que ainda não se socorria do bacio. Avolumou-se a sombra do tio, enquanto ela se aproximava do pórtico. Ao abrir a porta, não evitou o trejeito agreste como resposta ao “bom dia, filha”. Pagou por isso, mais tarde, e entrou na madrugada com as pernas imersas no azeite, mezinha ancestral para curar feridas.
Naquela mente de criança que não se lembrava de chorar nos braços da mãe, um rico existia na ausência da vassoura, ou do ferro de engomar. Cresceu com esta incipiente e cândida noção de riqueza. Todos os dias, quando se deitava numa madrugada já clara, sussurrava para a almofada desbotada a dor que havia aprendido a calar. Chorava pólvora seca de raiva sustida, enquanto as suas mãos calejadas percorriam o corpo, acariciando as rugas precoces dos sonhos cansados de só serem sonhados. Dormia pouco, por coerção, mas devaneava, durante todo o dia de labuta, com o sono, onde encontrava a sua ausência. Quando vestígios de sono ainda fervilhavam no torpor ébrio da consciência expatriada, tímidos raios de sol derramavam-se pelas frinchas da janela, apagando o escuro da vigília.
Habituou-se a acordar com o cântico dos galos, sangrando os pés quando calcorreava o caminho espinhoso do regresso a si. Só muitos anos depois aprendeu a apreciar aquela sinfonia anárquica, na placidez dos lençóis. Antes de ser mãe, compreendeu que privar as crianças dos trinados dengosos dos galos era um crime. Prometeu zelar pelo sono dos filhos quando o espectro da manhã se desenhasse. Teve duas filhas, gémeas. Hoje, a surdez impede-a de ouvir as pingas compassadas da chuva, o rumorejar hermético da folhagem e os galos na aurora rouca. Talvez por isso, não sei, no sonho mudo de há dias, o bisneto que ela teme não embalar decalcava, no seu ouvido embargado, os desconchavos de um galo emudecido nas reminiscências furtivas da infância perdida.
Esteve pouco tempo na escola, suficiente para aprender a desenhar as letras do seu nome e a soletrar grande parte do alfabeto. No âmago daquela criança com mãos de cal, pulsavam ânsias que se cruzavam com o conhecimento. A escola representava uma fuga às tarefas caseiras, e toda a família a incitava a “aprender a escrever, para que possas assinar o teu nome quando casares”. Um dia, chegou a casa feliz, e varreu com inusitado fulgor as repartições limpas de madrugada, ao acordar. A família transitava pela casa, batia à porta, derramava vinho no chão, e ela parecia desenhar círculos com a vassoura. O pai chegou tarde e estupefez-se com aquela erupção porosa de esplendor. “Se tu pensas que vais para a escola namorar, enganas-te. Vai já para o quarto. A escola acabou.” Despediu-se da filha com uma bofetada que a fez oscilar. Mas, nessa noite, pouco importava. Até à cama, continuou a escrever o seu nome com a vassoura, e nunca soube que dançava a valsa do destino. Nunca mais voltou à escola, e já podia casar.
Cresceu numa época de privações. Sem compreender o Mundo que se alongava para além da sua miopia patológica, converteu a figura do padre em símbolo de verdade profética, quando a fúria dos céus abriu crateras na cidade e derrubou casas de pecadores. Tinha uma obscura ideia do fim do mundo, só iluminada pelo fogo celeste que incendiava os medos dos fiéis. Pensou que o fim havia chegado quando monstros negros se erguiam dos mares calmos da Madeira, e cuspiam infernos. Foi num desses dias que conheceu o homem com quem haveria de casar, quando regressou com os pais a casa no táxi de um vizinho que tinha um herdeiro varão.
Percorreu a adolescência como um trovejar distante. O seu mundo reduzia-se a cada dia, mas ganhava uma amplitude vertical, entre a terra e um Deus que vivia sobre as nuvens. Habituou-se, desde a infância, à litania acrítica que os padres reproduziam, e passou a explicar tudo através do “poder de Deus”. Já na velhice, quando, pela primeira vez, viajou de avião, exclamou: “O poder que o sopro de Deus tem para alevantar isto!”. Quando ela ouve a notícia de que um avião se despenhou, eu sinto que ela vive um dilema, e eu traduzo o seu silêncio apreensivo assim: “Os aviões caem porque Deus perdeu o fôlego”. A vida dela é simples, porque tudo o que ela não consegue entender, Deus explica.
Casou cedo, engravidou, e teve duas filhas. As filhas deram-lhe netos que a fazem querer superar-se. Há muitos anos, o sonho dela era ver a primeira comunhão dos netos. Mais tarde, o crisma dos netos. Depois, quis viver para assistir à consagração dos estudos deles, perante o senhor padre. Os netos continuaram a crescer, e os objectivos dela adaptaram-se aos novos tempos. Viu uma neta casar-se, e nesse dia disse que já podia morrer feliz. Mas viveu para além desse dia, e já se prepara para respirar a fragrância branca das outras netas “encaminhadas”. “O meu desgosto é não ver o meu único neto casado”, confessa. Mas ela renova os desgostos a cada hora, desde as dores nas pernas que a entorpecem, a deformação das mãos que a impedem de engomar, ou os problemas na coluna que lhe retiram altivez. A vida fê-la esquecer os sonhos de criança, algures abandonados numa infância que a velhice devolve. Sempre que o neto parte para o estrangeiro, despede-se com um “não sei se é adeus”. Mas não há adeus para a eternidade.
Hoje, vive só, entre retratos antigos e móveis imóveis, perseguindo a ilusão de que está tudo no mesmo lugar. Mas não está. A nova casa situa-se à distância cósmica de 30 minutos de passos cansados. Nas noites insones, ela fala com uma porta que não se abre: “Então, não entra ninguém. Por que ninguém bate à porta?” Noutras noites, contempla a foto de um sobrinho ciclista, e sobe com eles as madrugadas vazias, almejando os céus prometidos que vivem nos olhos azuis de um neto.
A bisneta por nascer visita-a em todas as madrugadas, porque ambas temem extraviar-se. A neta grávida confessa ao médico que a angustia o silêncio da filha, à noite. Nem ela nem o médico sabem que a filha visita a bisavó. Ela ensina-a a ler, e ouvem, juntos, o despertar dos galos.
"Avó -, sussurra-lhe a bisneta -, ensino-te a ler, mas nunca assines a certidão de óbito".